Do tamanho do bom gosto
Eliete Negreiros lançou há anos um cd, cujo título era canções de 'tamanha ingenuidade', ou algo assim. Porém,
Caipira, cd de Suzana Salles, Leline Santos e Ivan Vilela, traduz tudo isso com muito mais propriedade. Recolhendo canções de João Pacífico, José Fortuna, Zé do Rancho e outros ícones da música de raiz do sudeste brasileiro, o cd encanta.
Quem ainda não ouviu, ouça. Há versões especialíssimas para
Índia e
Meu Primeiro Amor, canções que já mereceram quase uma centena de gravações, e que ganham neste cd arranjos ímpares. Mas esses são apenas exemplos. O disco, como um todo, é mágico.
As marchinhas abrem as alas
Uns carnavais, outros. Já nos conhecemos desde então. Mas agora, ressurgem elas, revigoradas, revisitadas e tudo o que o prefixo latino 're' nos autoriza a recuperar e reavivar.
Politicamente incorretas; cantando cabelos que não negam, marias que à noite são joãos, perguntando se o Zezé é; ou carregadas de duplos sentidos, as marchinhas de carnaval nasceram num período de 60 anos, entre 1870 e 1930. Seus dizeres efêmeros se assemelham aos das crônicas: bem humorados, a fazer a história.
No ápice, dos anos 20 aos anos 60 do século passado, marcaram com letras picantes e pequenas reportagens ritmadas, as virtudes e defeitos de gerações. Sem nunca tê-lo visto, todos conheceram o pedreiro Waldemar, cantado por Blecaute, em 1949, que construía o edifício, mas depois não podia entrar nele. Na sua evolução, desde Chiquinha Gonzaga, as marchas-ranchos ou as marchinhas começaram abrindo alas, nas vozes de Linda e Dircinha Batista, vestiram a Máscara Negra com tanta saudade, cantada por Dalva de Oliveira, que mais tarde o menino Buarque criaria uma Noite, só dos mascarados.
O estertor parecia ter acontecido, sem deixar o humor, jamais, nos idos anos 60, cedendo espaço aos apoteóticos sambas-enredos. Mas estes é que parecem ter perdido a graça.
Nas ruas da cidade, dias atrás, desfilou um caminhão de Cultura da Prefeitura, entoando as velhas marchas. No Fantástico, um concurso revelou as novas. Como se lá de longe a marcha cantasse em primeira pessoa: 'taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim'.